On the playground you learn so much

Sim, as crianças crescem. Pode parecer óbvio, mas às vezes esquecemos deste fato quando nos propomos a pensar a sociedade daqui um futuro. Ainda que subordinadas ao comportamento da geração anterior, seu desenvolvimento é um reflexo (para o bem ou para o mal) das experiências dos mais velhos. Os adolescentes de hoje não sabem bem o que é um mundo sem touchscreen, sem google...sem internet. Mas eles são os mesmos rebeldes (ai os hormônios) e querem fazer as coisas à sua maneira. Não seria diferente a relação com a redes sociais, um espaço que pode funcionar como extensão do símbolo que o quarto teve em outras gerações, o seu próprio canto. My room, my rules.

Foi o que detectou Devorah Reitner em seu artigo publicado pelo NY Times. Entretanto, ao mesmo tempo que existe essa liberdade de sustentar o seu próprio lugar no mundo online, existem barreiras sobre como este espaço pode ser exibido. A cada grupo de idade existem regras para o manejo das redes sociais por exemplo. As meninas mais novas temem se expor de biquini e demonstrarem um certo esforço sobre a própria sensualidade. Este tipo de foto teria que ter um elemento que rompa essa "intenção", como a presença de algum familiar na mesma imagem. A regra muda para as garotas mais velhas que já estão no colegial e que "podem" usar as fotos de biquini, em alguns círculos, como forma de empoderamento, “body positive”.

O contexto das fotos ditam a dinâmica de uso das redes sociais porque pode traduzir as mensagens que estes jovens se preocupam em mostrar ou não. Aparentemente, exibicionismo e ostentação foram banidos dos acervos de imagens publicadas. Por exemplo, não é que as meninas não queiram ser sexy. Elas não querem parecer algo que forçado demais e se preservar de um possível julgamento. Girls just wanna have fun(damental rights) e nada além do que possa parecer. Por isso a necessidade de mostrar que estão com adultos e familiares em plena diversão, sem pose e sem atitude atraente. O mesmo vale ao publicar fotos das férias em lugares luxuosos. Um grupo focal contou que quem desbodece essas "códigos" pode ser julgado.

Estas meninas estão ainda na descoberta das primeiras experiências sociais, um terreno bem delicado, especialmente, pelo assédio dos outros colegas. A autoestima também está em jogo como a necessidade de sentirem-se seguras com suas belezas. A cautela nas redes parece uma estratégia de equalização. Ninguém se destaca, ninguém passa do limite, ninguém se expõe. Um outro grupo comentou sobre os sentimentos que uma foto pode gerar na outra pessoa. Mais regras a serem seguidas para que ninguém passe do limite socialmente seguro. Um foto da festa é ok. Agora fazer praticamente um live com diversas imagens é visto como algo ruim. Reitner comenta o sentimento de solidão que se instaura quando alguém acompanha de longe o evento. Quase como se parte destes "acordos" é não "provocar" reações negativas no outro com possíveis motivações de julgamento. 

O que Reitner alerta é para que os pais tentem compreender quais são essas barreiras criadas pelos jovens nas redes sociais. O que é permitido, quais os limites, as regras são as mesmas para meninas e meninos? O que é um post bom e um não tão legal? Estar no mundo digital também necessita a vigilância dos pais por ser um espaço de formação que pode até mesmo estressar os adolescentes, por tratar-se da visão e atuação no mundo social, mesmo que online. Assim como os adultos, foi identificado também em garotas e garotos um prazer neurológico com os likes recebidos.  Segundo uma pesquisa da Pew Research Center, 24% dos adolescentes estão online constantemente. Por isso a importância de saberem reagir e manterem-se sanos diante das relações online.

Se pais e jovens souberem o que significam essas regras não ditas, podem estabelecer uma relação distinta na compreensão do que é a vida social e desenvolverem comportamento distinto para além da internet. Reconhecer essas barreiras é uma missão importante para as marcas sacarem o mundo online destes adolescentes, mas principalmente, terem em conta o que está em jogo para essa geração.

Fonte: https://www.nytimes.com/2017/01/05/well/family/the-unspoken-rules-kids-create-for-instagram.html?_r=0

Gláucia Oliveira

Pesquisa. Lê. Escreve. Pensa. Conecta.

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