O que é essa onda nórdica? Socorrr

"(...) é por meio do imaginário que se podem atingir as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. É nele que as sociedades esboçam suas identidades e objetivos, detectam seus inimigos e, ainda, organizam seu passado, presente e futuro."1

Esta é a definição do filósofo e historiador Bronislaw Baczko sobre o imaginário social. Muitas vezes nos deparamos com percepções sobre o mundo que não sabemos como a formamos, uma vez que nem sequer tivemos tal vivência, mas compartilhamos com os outros as mesmas impressões. Este é o imaginário social, um padrão criado em que nos apoiamos para identificar as coisas. 

Os brasileiros sabem que nem todos nós temos samba no pé. Mas qual é a primeira coisa que alguém de fora diz quando encontra um brasileiro? Samba! É uma construção idealizada, alheia, coletiva, aproximada, que dá suporte para reconhecer as variações sociais do mundo. Da mesma forma como não é necessário irmos à Noruega para também idealizarmos a sociedade deste país. Vamos dizer "qualidade e alto padrão de vida; salários incríveis; zero corrupção; seriedade; tudo funciona; gente alta, loira, linda; frio; vikings". Sempre partiremos de um lugar comum sobre aquilo que não conhecemos.   

Não é à toa que os países escandinavos juntamente com Finlândia e a Islândia passaram a ser tratados como a região do mundo em que a perfeição é sinônimo de cotidiano. A palavra "nórdica" de propriedade geográfica e cultural passou a ser adjetivo de algo incrível, descolado, desejado. A influência do estilo de vida deste lugar tem sido enorme nos últimos anos, tornando-se o maior exemplo sobre o ideal de felicidade pelo qual devemos buscar. Há uma longa lista de nomes que se transformaram em referências nas mais diversas áreas seja no cinema, arquitetura, literatura, gastronomia, música, moda. Aliás, as mulheres nórdicas foram consideradas as mulheres mais estilosas do mundo. Gente, quero uma passagem só de ida pra lá!


Um dos maiores ícones de moda e beleza é a blogueira Pernille (www.instagram.com/pernilleteisbaek)

Só eu quero morar nessa foto? (http://www.myscandinavianhome.com/)

Mas claro que uma parcela deste estilo de vida é idealizado, fazendo parte do nosso imaginário especialmente alimentado pelas mídias sociais, com destaque para o instagram, aplicativo de mundos paralelos da realidade hehehe. Um pouco farto desta perfeição toda, o jornalista britânico Michael Booth quis desmontar este mito em torno destes lugares e lançou um livro chamado The Almost Nearly Perfect People: The Truth About the Nordic Miracle. Pelo título percebemos que Booth está bem de saco cheio da nossa idealização, não é mesmo? Vivendo na Dinamarca há quase 20 anos, Booth viajou pelos países nórdicos entrevistando antropólogos, filósofos, jornalistas e até pescadores para compreender como se formou a "febre nórdica" sobre o mundo.

Booth escreve com a consciência de que seu livro não impedirá que os jornais europeus sigam publicando sobre os primores nórdicos, modelos de educação, largas licenças de paternidade e outras exaltações sobre a região. Mas ele acha necessário expor alguns fatores problemáticos que não aparecem na lista da perfeição e muito menos no instagram. O isolamento nórdico além de ajudar a sustentar a estabilização do padrão de vida, (pais deixando carrinhos de bebês nas calçadas enquanto compram seus cafés sem problemas), também nutre um medo de possíveis mudanças a partir da vinda de estrangeiros o que fortalece a formação de grupos ultranacionalistas, ampliando os comportamentos xenófobos na região. Os índices de alcoolismo e machismo também são bastante elevados. Booth ainda cita o número considerável de suicídios nestes países. 

A ideia do autor não é criar uma má impressão ou detonar a imagem dos nórdicos, porque de fato, parte do nosso imaginário social a respeito deste lugar não está tão fora da realidade assim. Parece que Booth quer nos provocar sobre como compramos a ideia de felicidade sem muito senso crítico. Sim, porque a felicidade é um objeto de consumo moderno que dirige nosso comportamento. O que fazemos para ter mais harmonia em nossas vidas? Questionamos nossa relação com os produtos que compramos? Quantas vezes a grama do vizinho, ainda que verde de verdade, será mais importante do que o fato de sua casa estar com sérios problemas? Idealizamos diariamente este tipo de comportamento em busca do que é o certo e o melhor pelas mídias sociais que potencializam a falsa ideia de como os outros estão/são perfeitamente incríveis menos a gente. Muitas marcas pautam suas inovações inspiradas neste modelos de vida praticamente inatingíveis mas igualmente almejados. Como é aplicar uma referência tão distante e distinta em outra cultura, como a brasileira? Trabalhar sobre um ideal de inspiração pode ser arriscado e não garante a motivação de uma nova demanada de consumo. Por isso as traduções culturais são extremamente importantes e delicadas na elaboração de estratégias e inovação de consumo.  

Aproveitamos pra colocar o som da princesinha sueca Tove Lo, enquanto vocês seguem esta lista de instagrams incríveis e se inspiram no estilo de vida dessa galera que parece não ter problemas, ta loco!
 

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1: http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=297
Fonte: http://smoda.elpais.com/moda/desmontando-la-utopia-escandinava-no-todo-es-tan-cool-como-parece/

Gláucia Oliveira

Pesquisa. Lê. Escreve. Pensa. Conecta.

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